
Dom Luís Orione
“Quero semear o Amor em todos os caminhos”
Pe. Márcio Almeida Prado, sacerdote orionita
Filho de Carolina e Vitório Orione, Luís nasceu no dia 23 de junho de 1872, em Pontecurone, na Itália. Na pobreza e religiosidade da família, desenvolveu grande amor por Deus e pela humanidade sofredora.
Ainda adolescente escreveu uma carta ao vigário de Molino, pedindo ingresso no Convento dos Franciscanos de Boghera. Já no Convento, em 1886, às vésperas de receber o hábito franciscano, caiu doente. Na doença, teve um sonho: via longas fileiras de jovens vestindo túnicas brancas e, sorrindo para ele, animando-o a viver.
Recuperou-se da enfermidade, mas os frades o mandaram de volta para casa. Ficou um pouco decepcionado, pois queria muito ser padre.
Ainda no mesmo ano, 1886, Luís entrou no Colégio Salesiano, em Turim, onde conheceu Dom Bosco.
Em 1889, ingressou no seminário diocesano de Tortona, Itália. Sempre animado pelos ensinamentos de Dom Bosco e a obra de São José Benedito Cotolengo, sentia-se cada vez mais impelido aos pobres.
Pequena Obra da Divina Providência
“A fé move a história”, ensinou ele, que sempre fez do serviço sua meta. E esse trabalho começou bem cedo. Inspirado nos ensinamentos de Dom Bosco, Luís Orione ainda era um seminarista quando decidiu dedicar-se aos jovens menos favorecidos de Tortona. Estava com 21 anos quando foi pedir ao Bispo permissão para abrir um colégio para ensinar um grupo de 14 ou 15 meninos pobres, filhos de lavadeiras e lavradores.
Permissão concedida, o jovem seminarista conseguiu encontrar uma casa para esse fim, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar o aluguel. Entregou o trabalho nas mãos da Divina Providência. Não passou muito tempo e o dinheiro veio por meio de uma senhora amiga, que lhe ofereceu uma boa quantia em troca do estudo de seu sobrinho. A casa passou a chamar-se “Coleginho de São Bernadinho” e atendia jovens pobres com vocação sacerdotal. Assim brotou a primeira semente de Dom Orione.
Escreveram sobre ele: “A opção preferencial pelos pobres crescia em sintonia com a opção pelo homem, começando pelos jovens desvalidos e desamparados”.
Começou a receber colaboradores que deram origem à primeira família religiosa, os Filhos da Divina Providência. Pouco tempo depois surgiram os Eremitas da Divina Providência, cegos e videntes (1899), e os Irmãos coadjutores.
Surgiu mais uma inspiração: “Já atendemos às crianças necessitadas, agora nos esperam os anciãos! No seguimento e imitação de São José Cotolengo, vamos abrir as portas e nossos corações para socorrer os pobres!” Nasceram, então, os Pequenos Cotolengos, para abrigar os enfermos, os idosos, os portadores de deficiências físicas ou psíquicas, os pobres abandonados pela sociedade.
Sucessivamente Dom Orione fundou as Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade (1915) e as Sacramentinas não videntes (1927).
Mesmo depois de sua morte, os ramos de sua boa semente continuam se espalhando. O Instituto Secular Orionino foi fundado em 1959, constituído por pessoas leigas, consagradas com votos, mas que vivem em ambientes comuns, “no mundo e com os meios do mundo”. E em 1990 a Congregação Dom Orione criou a Comunidade das Irmãs Contemplativas de Jesus Crucificado.
Uma obra que se espalha
“A caridade salvará o mundo”. Levou a sua obra caritativa e o seu zelo pela Igreja, de uma ponta à outra da Itália, erguendo em toda parte escolas, igrejas e sobretudo casas para pobres e necessitados; a todos anunciando o Evangelho de Cristo.
A sua Pequena Obra da Divina Providência propagou-se na Europa, nas Américas e mais tarde na África, e, recentemente, nos países do leste europeu, nas Filipinas, na Jordânia, e em outras partes.
Dom Orione enviou seus religiosos ao Brasil em 1913. Oito anos depois, ele próprio veio ao Brasil. Voltou em 1937, para intensificar os serviços de sua congregação religiosa. Como que pressentindo sua morte que ocorreria três anos depois, disse do alto do Corcovado no Rio de Janeiro: “O que não fiz pelo Brasil em vida, o farei após a morte”. E hoje podemos verificar essa promessa. Os seus religiosos e religiosas estão presentes nos diversos Estados brasileiros, testemunhando o seu particular carisma de amor e dedicação aos pobres.
Fim da vida terrena
Em fevereiro de 1940, Dom Orione teve uma crise cardíaca e pediu os últimos sacramentos, mas melhorou e voltou ao trabalho. Queriam mandá-lo a Sanremo para se recuperar, mas ele dizia que queria morrer entre os pobres, não entre as palmeiras de Sanremo. Então, no dia 12 de março de 1940 partiu ao paraíso.
A vida de Dom Orione foi bem reconstruída através de testemunhos e biografias. Seus escritos formam um epistolário impressionante, constituem um patrimônio precioso tanto para a formação dos seus discípulos e devotos como para o estudo nos vários campos da história, da pedagogia, da vida eclesial, da espiritualidade e da hagiografia.
No dia 26 de outubro de 1980, João Paulo II o proclamou Beato. E em 16 de maio próximo o canonizará. O milagre realizado veio também de Tortona. O senhor Pierino Penacca, que conheceu Dom Orione na juventude, depois de vários sangramentos, recebeu o diagnóstico médico: carcinoma pulmonar. A família implorou a intervenção divina por intermédio de Dom Orione e o conselho médico de 16 da janeiro de 2003 confirmou, de modo unânime, que a cura era inexplicável cientificamente.
Fonte: Revista Shalom Maná
Primeiro o que deve ser primeiro...
Para que Dom Orione chegasse à Canonização, isto é, para que a Igreja reconhecesse que ele é um Santo e que ele é um modelo de vida cristã e um protetor para todos nós, não bastariam todos os processos do mundo se antes não houvesse a vida heróica de fé e de amor que ele viveu. Foram 68 anos, desde o nascimento de João Luís Orione em 1872 até a morte em 1940. 68 anos de crescimento espiritual, no caminho de Jesus Cristo e do Evangelho. No caminho da confiança na Providência e na generosa dedicação a Deus, à Igreja e aos Irmãos mais necessitados. Aí, sim, podia e merecia ser olhado como um candidato à Canonização. Mas ainda demorou; foi em 1963 que saiu o Decreto anunciando a abertura do Processo de Beatificação e Canonização de Dom Orione.
Processo de Canonização é uma cuidadosa investigação da vida, das obras e dos escritos de algum fiel que tem fama de santidade. Primeiro o Bispo do lugar onde o fiel viveu e depois o Papa nomeiam comissões para examinar toda a história do candidato à canonização. As comissões convocam testemunhas, buscam depoimentos, lêem tudo o que o fulano fez e escreveu. Convocam os admiradores dele e convocam sobretudo toda e qualquer pessoa que tiver qualquer informação contra a fama de santidade do tal fiel...
E com isso lá se vão anos...
Do momento que o Processo começa o fiel já é chamado Servo de Deus. No dia em que a Comissão e o Bispo reconhecem que realmente o fiel foi mesmo uma pessoa de virtudes heróicas, o candidato à Canonização ganha um novo título: Venerável. Depois disso é que começa o processo em Roma, lá na comissão nomeada pelo Papa; se tudo for bem e ao Comissão der um parecer favorável, o Papa fica à espera de uma prova do céu; um milagre que seja comprovado por testemunhas fidedignas e que uma junta médica ( na qual deve haver também médicos que nem sejam católicos!) concorde que o fato não tem explicação natural. Só depois desse milagre comprovado é que o fiel recebe o título de Beato.
Vem então o mais difícil. Um processo mais rigoroso para reexaminar tudo de novo, para ver se o fiel merece mesmo ser canonizado. Se a nova Comissão der voto favorável... de novo o Papa espera um outro milagre do Beato. No caso de Dom Orione, nessa fase final foram apresentados muitos milagres atribuídos a ele. Foi escolhido como mais maravilhoso o milagre da cura de Pierino Panaca um homem morador da região de Tortona. Pierino em 1990 adoeceu gravemente; foi internado no Hospital São Rafael; houve exames e mais exames e o doente piorando, até que foi constatado “carcinoma pulmonar com infiltrações e vazamentos ( um caso gravíssimo de câncer) ” e veio o prognóstico dos médicos: “terapia inexistente e grave risco de vida”. Esse diagnóstico e prognóstico veio no dia 31/12/1990. A família, desiludida pelos médicos, recorreu então à fé e iniciaram orações pedindo a cura pela intercessão de Dom Orione. Rapidamente Pierino começou a melhorar e poucos dias depois estava completamente bem. Os médicos o examinaram e não havia nem sinal de tumor nenhum! Por várias vezes nos meses e anos seguintes os médicos quiseram repetir os exames, mas nem sinal da doença! Pierino viveu muito tempo e só veio a morrer em 2001, por razões completamente diferentes do antigo tumor canceroso, como declararam os médicos.
A comissão designada pelo Papa tornou a reexaminar todos os documentos da anunciado milagre e finalmente veio a aprovação. E assim, no final de 2003, exatamente 40 anos depois do início do Processo, João Paulo II declarou que a Igreja estava pronta para canonizar Dom Orione. E foi marcado o próximo dia 16 de maio para a canonização daquele que já nos dias de sua morte em 1940, o então Papa Pio XII não teve dúvida de denominar o pai dos pobres e o benfeitor da Humanidade sofredora e abandonada.